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  • Marcos Pantaleoni

Sobre a versão do duo Prismas para a canção Mistérios da Joyce e Maurício Maestro


Eu e a Joana fomos convidados em 2017 para integrar uma série de concertos no Sesc Vila Mariana, cuja temática feminina definiu que o repertório deveria ser inteiro composto de obras feitas por mulheres.

Mistérios foi uma das obras que escolhemos, e tal escolha logo de cara nos colocou um primeiro desafio. O concerto deveria ser apenas de canções eruditas, o que em linhas gerais define que não pode ter amplificação, o canto, lírico, o piano sem as recorrentes levadas típicas do acompanhamento instrumental popular, dentre outras coisas mais que coloca divisas entre o que é chamado de música erudita e popular.

Explicamos para a organização dos concertos que faz parte do perfil do nosso duo transitar entre popular, erudito e experimental, mas de uma forma orgânica, e os convencemos de incluirmos Mistérios e também Espiral de Lea Freire dentre as outras músicas consideradas eruditas.

Vou explicar aqui o que lembro do processo de criação da versão do duo Prismas para a canção Mistérios.

Eu e Joana conversamos inicialmente sobre a letra da canção, que relaciona nossas emoções aos elementos da natureza. Ambos gostamos da ideia de o arranjo musical realçar o conteúdo da letra em uma canção, e foi nisso que investimos, além da forma de se cantar.

A canção Mistérios já em sua versão original é linda. Mas a nossa interpretação consistiu da forma como gostamos de fazer uma canção. O arranjo seguiu o princípio de fazer como nos lieder do século XIX (assim como em muitas obras da música popular brasileira principalmente após a década de 60, como bem lembra Joana Mariz), no sentido de que o acompanhamento não é indiferente à letra, colocando a expressividade instrumental de igual para igual com o canto.

A visão da Joana sobre o concerto do começo ao fim direcionou o arranjo que fiz para Mistérios em direção ao diálogo com as outras músicas que fazemos e com compositores da vanguarda do século XX que temos como referência, como por exemplo o italiano Luciano Berio.

O arranjo que fiz para Mistérios, portanto, resultou na busca por fazer a canção dialogar com o nosso repertório e nossas referências, e também na adaptação de uma canção popular para uma apresentação de canções de câmara.

A melodia manteve-se inalterada, apenas cuidamos da transposição para uma tonalidade em registro mais agudo, procedimento necessário para que a voz tivesse projeção e clareza numa situação totalmente acústica, sem amplificação. A forma de se cantar fica entre o canto lírico e o canto popular, mais para o popular do que para o lírico. Nas palavras de Joana, “mais forte e mais agudo, e sem perder a característica da voz falada”.

Na harmonia, objeto que sempre costumo alterar em meus arranjos, eu quase não mexi. Resolvi investir numa composição de gestos e padrões sem alterar os acordes.

Para isso, tive duas referências principais, que são minhas impressões sobre a primeira das 6 Encores para piano solo de Luciano Berio, e prelúdio em Dó menor do primeiro livro do Cravo Bem Temperado, de J. S. Bach.

Ao resultado final, após algumas apresentações, ensaios e gravações, acabamos também acrescentando um pequeno trecho de improvisação livre, sobre um campo harmônico formado pelas notas do acorde de sol maior e lá bemol maior.

O resultado deste trabalho pode ser conferido no videoclipe produzido pelo talentosíssimo Gabriel V Neves, logo a seguir.



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